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Reflexões de Dom Alberto Taveira, arcebispo de Belém do Pará - TODOS OS SANTOS

Domingo, 1 de novembro de 2015

A Igreja celebra duas realidades que se aproximam e são carregadas
de ensinamentos para todos os cristãos. A Comemoração dos Fiéis defuntos, no dia dois de novembro, consta do Calendário Litúrgico da Igreja Católica. Com alegria constatamos que outras confissões cristãs e também outros grupos religiosos aproveitam a data da Igreja e relembram suas pessoas falecidas. "Para os que creem, a vida não é tirada, mas transformada; e desfeito o nosso corpo mortal, nos é dado, nos céus, um corpo imperecível", como rezamos na Liturgia de Finados. Tomando consciência da passagem pela morte, olhamos para frente e para o alto, com a Solenidade de todos os Santos. Na plenitude da vida em Deus está nossa esperança e nosso futuro!
A proposta da Igreja para todos os cristãos é a santidade, e alguém já cantava "ou santos, ou nada!”. No entanto, habituados demais ao ritmo algumas vezes modorrento da vida cotidiana, pode acontecer que percamos o rumo, não dando ao Senhor da vida todas as respostas aos seus apelos, ajeitando-nos na mediocridade. Vale a pena provocar-nos na estrada da santidade!
Ser santos! É proposta de Deus e de sua Igreja para todos. Não fomos feitos para o pecado e para a maldade. Primeiro passo é ter no coração um grande ideal, uma meta a alcançar, buscando o que agrada a Deus, o que faz bem para as pessoas e para nós mesmos, não cedendo ao derrotismo que se encontra à espreita. São João Paulo II, na Exortação Apostólica Novo Millenio Ineunte (NMI), recordou preciosos ensinamentos da Igreja: "Não hesito em dizer que o horizonte para que deve tender todo o caminho pastoral é a santidade... É preciso redescobrir, em todo o seu valor programático, a Constituição dogmática Lumen Gentium (Cf. Lumen Gentium, capítulo 5), intitulado vocação universal à santidade... A redescoberta da Igreja como mistério, ou seja, como um povo unido pela unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo, não podia deixar de implicar um reencontro com a sua santidade, entendida no seu sentido fundamental de pertença àquele que é o Santo por excelência, o três vezes Santo (Cf. Is 6, 3). Professar a Igreja como santa significa apontar o seu rosto de Esposa de Cristo, que a amou entregando-se por ela precisamente para a santificar (Cf. Ef 5, 25-26). Este dom de santidade, por assim dizer, objetiva é oferecido a cada batizado. Mas, o dom gera, por sua vez, um dever, que há de moldar a existência cristã inteira: Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação (1 Ts 4, 3). É um compromisso que diz respeito não apenas a alguns, mas os cristãos de qualquer estado ou ordem são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade." (NMI 30).
Ser Santos! Olhar para a plêiade de testemunhas qualificadas, a Virgem Maria, os Apóstolos e Mártires, Virgens e Confessores, homens e mulheres, crianças, jovens e adultos que oferecem às sucessivas gerações de cristãos a veemente proclamação de que o Evangelho é verdadeiro e possível de ser vivido. E basta olhar ao nosso redor, para descobrir pessoas admiráveis, sim, gente que podemos seguir pelo seu comportamento ilibado, por acreditar seriamente nos ensinamentos da Escritura e da Igreja. Não faltam mestres e mestras! Olhe para o lado!         
Ser Santos! Olhar para o lado é também descobrir ao nosso redor pessoas que estão na mesma luta em que nos encontramos. Há grupos de cristãos que evangelizam com a liberdade de contar as próprias experiências, dando seu testemunho. Não se trata de pessoas perfeitas e "arrumadinhas", mas gente que pode cair milhões de vezes e recomeçar, sempre olhando para a meta da perfeição e da santidade. Uma das coisas que aprenderam é que seus limites e qualidades, oferecidos e contados com respeito, tornam-se parte do tesouro da Igreja!
Ser Santos! Olhar para dentro, no íntimo da própria consciência, descobrindo-se como tabernáculo em que Deus quer habitar Ser Santos! Não das guaridas às sugestões do maligno, mas corrigir imediatamente os rumos das próprias escolhas, estabelecendo intenções boas e retas em todas as ações, não se permitindo duplicidade, fingimento e mentira. Há um espaço dentro de cada pessoa indevassável, onde só ela e Deus podem entrar. Ser santos é deixar a casa interior sempre arrumada!
Olhar para frente! Deus, quando nos perdoa, e ele perdoa sempre, não brinca conosco. Todas as pessoas que fizeram a experiência autêntica do valor do Sacramento da Reconciliação sabem o quanto é libertador ouvir as palavras da Absolvição e sentir que Deus cancelou suas culpas, queimando-as na fornalha da Misericórdia infinita que se encontra em seu Filho, Jesus Cristo. De fato, na Cruz foi pregada nossa vida passada, lavada no Sangue de Cristo. Olhar para frente significa ainda melhorar sempre e cada vez mais, pois quem permanece parado, já está regredindo!
Ser Santos! Olhar para baixo, não para pisar nas pessoas, mas mantendo a ordem de valores e escolhas pensada por Deus. Bens materiais, dinheiro, propriedades e qualquer tipo de apego devem passar por um processo de purificação. Ocupando lugar em nosso coração, seremos estragados por dentro! Aprendemos com o Evangelho: "Não ajunteis tesouros aqui na terra, onde a traça e a ferrugem destroem e os ladrões assaltam e roubam. Ao contrário, ajuntai para vós tesouros no céu, onde a traça e a ferrugem não destroem, nem os ladrões assaltam e roubam. Pois onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração" (Mt 6, 19-21). Se estes valores são colocados ao nosso lado, tomam o lugar das pessoas a serem amadas como irmãs e irmãos. Se ficam acima de nós, desastre completo, pois tomam posse do lugar de Deus!
Ser Santos. É ainda São João Paulo II que toma a palavra: "A recordação desta verdade elementar, para fazer dela o fundamento da programação pastoral poderia parecer, à primeira vista, algo de pouco operativo. Pode-se porventura programar a santidade? Na verdade, colocar a programação pastoral sob o signo da santidade é uma opção carregada de consequências. Significa exprimir a convicção de que, se o Batismo é um verdadeiro ingresso na santidade de Deus através da inserção em Cristo e da habitação do seu Espírito, seria um contrassenso contentar-se com uma vida medíocre, pautada por uma ética minimalista e uma religiosidade superficial. Perguntar a um catecúmeno: Queres receber o Batismo? significa ao mesmo tempo pedir-lhe: Queres fazer-te santo? Significa colocar na sua estrada o radicalismo do Sermão da Montanha: Sede perfeitos, como é perfeito vosso Pai celeste" (Mt 5,48; NMI 31).
A Festa de todos os Santos seja celebrada na Terra e nos Céus! E se acrescente também o nosso nome aos que dela participam!
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